Ariano Suassuna: ‘O socialismo continua sendo a utopia no final do século’

Postado: 12-09-2012
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Ariano Suassuna, escritor

Por Wellington Farias
O Tropicalismo foi um movimento equivocado, sobretudo porque empunhou a bandeira do Brasil de uma imagem ridícula, simbolizado por figuras caricatas como Carmem Miranda. A opinião é do escritor e dramaturgo paraibano, Ariano Suassuna, membro da Academia Brasileira de Letras, autor de um dos mais importantes obras da Literatura Brasileira, o Romance d’A Pedra do Reino, e de peças teatrais não menos relevantes, como O Auto da Compadecida.
Ariano é o criador do Movimento Armorial. Poucos dias antes de conceder esta entrevista (1992), em sua casa, no bairro de Casa Forte, em Recife, o dramaturgo havia quebrado um pacto de silêncio de dez anos, com uma entrevista especial que concedera ao Caderno Mais, do jornal Folha de S. Paulo. Já naquela época, Ariano Suassuna estava escrevendo um novo livro que, segundo ele, poderia ser “uma retomada d’A Pedra do Reino”.
Paraibano “de nascimento e de coração”, Ariano foi a única pessoa a nascer no Palácio da Redenção, sede do Governo da Paraíba, em João Pessoa, à época em que o seu pai, João Suassuna, era presidente do Estado. Para conceder esta entrevista, o escritor impôs uma condição: não se falar dos fatos que marcaram profundamente a sua vida, no tumultuado período que culminou com a Revolução de 30.

Wellington Farias – O sr. tem se mantido distante de tudo, num regime de clausura, digamos assim. Praticamente não aparece em público, não dá declarações e tomou aversão à imprensa. Por que?

Ariano – É porque eu preciso de tranquilidade, de sossego para escrever. Eu me aposentei da Universidade (Federal de Pernambuco) onde exercia uma função que sempre me fascinou muito, que é a de professor. Mas, durante toda a vida, nunca fui de me dedicar exclusivamente à literatura. Então, depois de 33 anos ensinando na Universidade eu já tinha direito a me aposentar; aposentei-me para escrever esse livro com o qual sonhei a vida toda. Por isso, tenho que ter um pouco de tranquilidade, senão seria melhor continuar na Universidade.

O sr. está aposentado desde quando, e o que ensinava?

Ariano – Eu ensinava várias matérias – Filosofia da Arte Estética, Literatura Brasileira, História da Cultura Brasileira, Filosofia da Cultura. Mas, principalmente Filosofia da Arte. Estou aposentado desde julho de 1989.

Desde 1981 que o sr. não escreve ou, pelo menos, não lança nenhuma obra literária. Por que?

Ariano – Não. Depois de 1971 publiquei duas partes de um romance no Diário de Pernambuco. Em 1971, eu publiquei A Pedra do Reino. Mas, em 1974, se não me engano, eu publiquei, durante dois anos, duas partes do romance que seguiria ao Romance d’A Pedra do Reino, no Diário de Pernambuco. Dessas duas partes, a primeira publiquei em livro, que se chama Ao Sol da Onça Caetana. Mas, de lá para cá, eu achei que tinha cometido um erro de narração e suspendi, parei de escrever A História do Rei Degolado nas Caatingas do Sertão.

Em carta endereçada (e publicada) ao jornal Diário de Pernambuco, o sr. declarou-se afastado da literatura.

Ariano – Eu me declarei afastado da vida literária. Dessa eu continuo afastado. A não ser quando uma pessoa como você vem me pegar em casa, me surpreender de “emboscada”.

Qual é a diferença entre estar afastado da literatura e estar afastado da vida literária?

Ariano – Afastar-se da literatura seria parar de escrever. E eu nunca parei de escrever. Durante esses anos todos eu escrevi poesia, por exemplo, que é uma parte do meu trabalho de escritor, que é praticamente desconhecida de todo o mundo. Eu escrevo poesia desde muito menino. Publiquei o meu primeiro poema – Noturno – aos 18 anos de idade, no Jornal do Commércio, de Pernambuco, em 1945.

Esse novo romance a que o sr. se referiu já está pronto? Aborda o que?

Ariano – Não está pronto e eu não quero falar sobre ele. Porque não gosto de falar sobre o que eu estou escrevendo; só gosto de falar depois de ficar pronto, mas como ele não está pronto, eu não gostaria de falar sobre o romance.

Pelo menos há uma previsão para lançamento? Já pensa em editora?

Ariano – Não sei nem se vou encontrar editor. Não tenho nem previsão para concluir este romance. Porque eu escrevo com muita lentidão, muito devagar, com muito cuidado. Eu tenho uma forma muito pessoal de escrever. Então, não sei quando vou acabar. E editor, então, não sei nem se vou encontrá-lo. Não pensei nisso ainda.

O sr. tem a fama de ser prolixo na narrativa e dado a rescrever os textos. Talvez esteja aí a demora, não?

Ariano – Há quem me considere prolixo. Eu não tenho uma visão clara sobre mim. Mas há alguns críticos que, quando publiquei A Pedra do Reino, disseram que eu poderia ter escrito o livro em apenas 300 páginas, e eu o fiz com 600 páginas. Eu até fiz uma brincadeira dizendo que poderia ter escrito em trinta páginas, em trinta linhas e em até três linhas. Eu poderia resumir a estória de Quaderna, que é o personagem principal de A Pedra do Reino em três linhas. Agora, eu não sei se contando em três linhas, trinta linhas, trinta páginas ou 300 páginas, teria tudo que tem em A Pedra do Reino. Eu não sei avaliar, não.

Qual vai ser o título do livro?

Ariano – O título ainda não existe.

Quaderna também é personagem neste livro?

Ariano – Quaderna reaparece.

Este livro, então, não seria a continuação d’A Pedra do Reino?

Ariano – Se eu conseguir terminar o livro como eu estou pensando, ele vai concluir a estória que começou n’A Pedra do Reino. Mas não se pode dizer que seja propriamente uma continuação. Seria uma retomada, digamos assim.

Quando o sr. rescreveu A Pedra do Reino o fez pensando que este romance teria continuidade mais tarde, ou essa retomada aconteceu fora de propósito?

Ariano – Em continuar pensava, sim. O livro A Pedra do Reino foi pensado como o primeiro de uma trilogia que se chamaria Maravilhosas Aventuras de Quaderna Decifrador e a Demanda Novelosa do Reino do Sertão. Este seria o título geral. Essa trilogia seria desenvolvida em três romances: primeiro, A Pedra do Reino; o segundo, O Rei Degolado, e terceiro Sinésio o Luminoso. Então, escrevi o primeiro e, do segundo, escrevi duas partes. Seriam cinco partes. Eu escrevi duas e as publiquei em livro somente uma.

Vamos falar um pouco sobre política. O sr. se considera um idealista?

Ariano – Você se refere a idealista no sentido filosófico?

Em que sentido o sr. é ou deixar de ser socialista?

Ariano – Essa palavra é uma palavra muito ambígua. Eu, que fui professor de Filosofia sei que esta palavra é muito ambígua. Porque os marxistas, por exemplo, chamam de idealista toda pessoa que tem uma visão materialista. Portanto, eles opõem o idealismo ao materialismo. Dentro desse sentido, eu sou um idealista. Agora eu, pessoalmente, não entendo dessa linha. Para mim, idealista se opõe ao realismo. E, nesse caso, por exemplo, Aristóteles não era um materialista, mas um realista. Então, eu sei como você está encarando a questão. Depende de como você encara. Se for dentro da visão marxista, eu sou um idealista; mas, dentro da visão aristotélica, eu sou um realista.

O sr. simpatiza com o marxismo?

Ariano – Antipatizo. Talvez antipatize mais ainda que com alguma coisa que pensavam que eu era contra: o capitalismo. Eu ainda tenho mais antipatia, talvez, pelo capitalismo, do que pelo marxismo.

Por que essa antipatia pelo marxismo?

Ariano – A antipatia deve ser mútua, inclusive. Porque tudo o que eu acredito é contrário ao marxismo. O marxismo é uma forma de materialismo. E eu tenho uma visão religiosa do mundo e do homem. A antipatia começa por aí. Depois, o marxismo na forma que ele assumiu, por exemplo, na ex-União Soviética, assumiu uma linha violenta da ditadura leninista e stalinista, que hoje está desmoralizada, mas a qual eu me opus antes disso. Agora, repito uma coisa que eu tenho dito sempre, mas que não tem sido publicada: eu ainda tenho mais antipatia ao capitalismo do que ao marxismo.

E como o sr. se define do ponto de vista ideológico?

Ariano – Como um socialista.

Não é meio contraditório : um socialista que antipatiza o marxismo?

Ariano – Não há contradição nenhuma. Mesmo porque o marxismo é apenas um tipo de socialismo. E, no meu entender, o marxismo foi uma visão deturpada do socialismo. O socialismo é muito anterior ao marxismo. Antes mesmo de Marx já havia os chamados socialistas utópicos, como Fourier, Babef, Benjamin, entre outros socialistas que não eram marxistas, e foram bastante anteriores ao socialismo. E o socialismo, como eu o entendo, é um sonho da humanidade que vem de muito longe. Vem desde o Cristianismo do tempo dos apóstolos.

Qual seria o modelo de socialismo mais próximo daquele que o sr. prega?

Ariano – Antônio Conselheiro e Canudos. Para mim, a coisa mais importante para um socialista brasileiro foi a tentativa que se fez em Canudos, de se instaurar o socialismo saindo de baixo para cima, e não imposto de cima para baixo.

O sr. diz que o socialismo é um sonho da humanidade que vem de muito longe, desde o cristianismo. Agora, desmorona o bloco socialista, cai o muro de Berlim, o capital já está presente nessas áreas. E agora, qual a utopia da humanidade neste final de século?

Ariano – Em que sentido?

No sentido político, no sentido de transformações sociais, de fazer com que as sociedades se tornem mais justas e igualitárias.

Ariano – Se não existisse uma utopia, teria de ser criada, porque o homem não pode viver sem um sonho. O homem não pode viver sem um sonho de melhoria. E este sonho para mim existe, que é este que estou lhe dizendo: o socialismo para uma sociedade justa e fraterna, como até hoje não foi feito. Veja você que os regimes ditos liberais, burgueses, privilegiaram a liberdade em detrimento da justiça. O socialismo marxista que, no meu entender, é uma deturpação do socialismo, privilegiou a justiça e a igualdade em detrimento da liberdade. Mas, infelizmente, em ambos os casos foi sempre liberdade para uma minoria e justiça para a maioria. Até hoje não se consegue fazer e organizar uma sociedade na qual a liberdade e a justiça tivessem o mesmo valor para a esmagadora maioria. Esse sonho é tão antigo quanto o homem, e será quem tem de nos guiar nessa abertura do terceiro milênio.

Que significado tiveram para o sr. os episódios do Leste Europeu, a queda do muro de Berlim? Até que ponto isso pode ter abalado a sua (e de tantos outros) convicção ideológica, mas sobretudo a esperança de implantação do socialismo, seja ele em que sentido for?

Ariano – Muito pelo contrário. Pela primeira vez eu me filiei a um partido político, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), ao qual pertenço hoje. Exatamente por conta desses fatos. Como os capitalistas diante daquela derrocada começaram a ficar imbuídos de um triunfalismo, a meu ver internamente injustificado, eu então achei que seria o momento de nós afirmarmos a verdade e a beleza do socialismo. Pela primeira vez eu me senti nessas condições. Porque, se eu antes me filiasse a um partido socialista, poderia ser confundido com os stalisnistas, com os marxistas, coisa que eu não queria. Então, no momento em que o stalinismo desmoronou, resolvi me filiar a um partido político socialista. E isso aconteceu pela primeira vez na minha vida. Exatamente para afirmar que o pessoal que está pensando que o socialismo está em crise, que o socialismo morreu, está inteiramente equivocado. Quem está em crise é o marxismo. O socialismo, mais do que nunca, é atual. Enquanto houver um injustiçado no mundo, o socialismo é atual e verdadeiro. Então, foi aí, a partir desses episódios, que me filiei a um partido político.

Assinar uma ficha de um partido político pressupõe que se assume um compromisso bem maior – um engajamento partidário efetivo e disposição de ajudar a esse partido, no seu crescimento, nos seus pontos programáticos etc. Até que ponto o seu envolvimento com o PSB pode descambar para uma candidatura?

Ariano – Não, de maneira nenhuma! Eu milito no PSB em Pernambuco, mas apenas como escritor, o que sempre fui. E é como escritor que participo do partido, e não como um político, porque eu não sou nem saberia agir como um político. Eu não tenho as qualidades necessárias para um político.

O fato de o sr. ser um socialista por convicção – e agora um militante de um partido político – não significa um risco para o escritor Ariano Suassuna, de deixar que o seu pensamento político partidário se manifeste em sua obra? Aliás, de que forma a sua ideologia se manifesta em sua obra?

Ariano – Você agora usou o idealismo em outro sentido. Faço uma distinção muito grande entre a militância pessoal e a arte engajada. Isso eu não vou permitir, não. A minha arte não fica colocada a serviço de partido nenhum. Se eu tenho preocupações políticas, essas preocupações naturalmente aparecem, como sempre tem aparecido. Mas no sentido de fazer uma obra de tese, ou uma obra a tal ponto engajada que venha a afastá-la daquilo que é a sua preocupação fundamental, que é a criação da beleza.

Em artigo que publicou na década de 70, o sr. chegou a profetizar que os pólos extremos das nações mais poderosas – “aparentemente inimigas” – viriam a se unir um dia, em detrimento dos países pobres do Terceiro Mundo. Há sinais de que isto venha a ocorrer?

Ariano – E não está acontecendo?! Veja agora: se aliaram os Estados Unidos, a Russia, a Alemanha, a Itália, a França para atacar o Iraque. Isso eu vi que ia acontecer. Porque, no fundo, tanto o marxismo-leninismo como o capitalismo tinham como idéia de nação um país fundamentado sobretudo na produção. Então, os valores éticos e morais são todos postos de lado, tanto em um como no outro. São duas formas de materialismo – o marxismo e o capitalismo. A importância que eles dão é a eficiência econômica e militar do pais. Então, eles terminaram se aliando. Isso era claro há muito tempo. Então, foi por isso que – me parede em 1976 – escrevi um artigo dizendo que eles iriam se aliar e partir contra o Terceiro Mundo, que consideram o real inimigo.

Qual a sua opinião sobre regimes como o da Albânia e de Cuba, que ainda resistem ao capitalismo?

Ariano – Eu simpatizava com a Albânia do ponto de vista do tamanho. Achava que era um pais pequeno com a coragem de enfrentar a gigante União Soviética mas que, infelizmente, fazia isso em nome de um radicalismo marxista ainda maior do que o da União Soviética. Quanto a Cuba, os meus sentimentos são contraditórios. De uma maneira geral, eu simpatizo muito com Cuba, com Fidel Castro e com o papel que ele desempenha na América Latina. Mas, a meu ver, o grande problema de lá é o marxismo. Se eles abandonassem o marxismo em nome de uma visão mais ampla de socialismo eu estaria com Cuba totalmente. Mas não estou por isso.

Como uma pessoa fiel à originalidade e ao pensamento político, alguma vez, por acaso, numa reflexão sobre esta postura, chegou a ter a sensação de estar ultrapassado?

Ariano – Lhe digo com a maior franqueza: eu não estou nem um pouco preocupado com este problema de estar, ou não, ultrapassado. Eu me preocupo muito é em manter uma coerência comigo mesmo e uma fidelidade àquilo que julgo ser a posição correta, seja em que campo for; seja no campo religioso, filosófico, político etc. Então, isso de me fazer, em certos momentos, parecer ultrapassado, não é um problema que me preocupa.

O sr. admite que é um “anarquista de esquerda”, como já tentou-se rotula-lo? E qual é o perfil do anarquista de esquerda?

Ariano – Olhe (risos), eu já estou cansado de responder a esse tipo de coisa. Eu já vi que não adianta mesmo explicar. Porque a gente explica e depois pergunta novamente; a gente voltar a explicar e perguntam mais uma vez. Não respondi a esta pergunta menos de 100 vezes. Mas, em todo caso, vou lhe responder. Acho esse problema secundário. E acredito, até, que as pessoas mais esclarecidas caem no equívoco de pensar que monarquia se opõe à democracia. Isso não é verdade. O problema da forma de um governo ser monárquico ou republicano é um problema secundário, até certo ponto. Porque não é isso que vai dar liberdade nem justiça. Lhe dou um exemplo claro: no século XX, as duas tiranias que se estabeleceram, ou seja, as duas formas mais autoritárias, mais diferentes de uma democracia, foram as formas republicanas: o nazismo e o stalinismo. A União Soviética era uma república e a Alemanha, de Hitler, também era uma república. Então, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Enquanto isso, na Suécia e na Espanha, se tem dois países monárquicos se fazendo um caminho mais para o socialismo, e com a monarquia.

Particularmente quanto ao Brasil?

Ariano – No caso do Brasil, o que me preocupa é que os príncipes da Casa de Bragança são da TFP – Tradição, Família e Propriedade -, num grupo; em outro, os monarquistas brasileiros estão divididos em duas linhas: uma de Dom Luiz e D. Bertrand etc, que são da TFP, de extrema direita, e os outros que são sustentados pelo deputado Cunha Bueno, que estão de acordo com a famosa e falsa “modernidade liberal” e entreguista da linha de Collor de Mello. Basta dizer que esta linha foi elogiada por Delfim Neto…

O sr tem combatido o chamado “modernismo liberal”. Por que?

Ariano – Eu falo mal deles por causa da impostura. Tenho horror à impostura. E essa “modernidade liberal” é uma impostura. Primeiro porque não é modernidade. Eles chamam os que estão defendendo o patrimônio nacional de “dinossauros dos anos 50″. Mas, comparados com eles, os “dinossauros dos anos 50″ são de hoje. Porque eles são do século XVIII. Então, em primeiro lugar não ha modernidade; e, em segundo lugar, não são liberais. Os maiores autoritários do mundo são esses adeptos da “modernidade liberal”. O pior de tudo é que eles são inimigos do patrimônio nacional. Estão entregando o País. Eu posso fazer todo acordo, menos com eles.

E quem melhor encarna o espirito da modernidade no Brasil?

Ariano – Não é pouca gente, não. É muito fácil para mim dizer que o Collor é um deles, por exemplo. Mas há também o Delfim Neto, o Roberto Campos; todos eles são lideres desse pensamento. No campo da cultura, era José Guilherme Melchior, que morreu há pouco e que queria fazer do Brasil um país organizado nessa linha. Eu não sei porque esse pessoal tem como moderno um pais como os Estados Unidos. Eu olho para os Estados Unidos e penso: meu Deus, será nisso que querem transformar o Brasil?! No dia em que transformarem o Brasil em alguma coisa como os Estados Unidos, como estão tentando, em me mudo daqui. Eu prefiro morar em Bangladesh. Prefiro um Brasil parecido com Bangladesh do que um Brasil parecido com os Estados Unidos.

Alguma vez pensou em deixar o Brasil? Já foi convidado a deixar o Brasil?

Ariano – Já fui convidado várias vezes, mas nunca saí. Já fui convidado para os Estados Unidos, Alemanha, França e Israel. Para a Alemanha, seria para ensinar; para os demais, para assistir à estréia de peças.

Quais das suas obras o sr. considera como as mais importantes?

Ariano – Posso dizer aquelas que eu prefiro. No campo da pintura, seria até um exagero eu falar disso, porque não me considero um pintor. Sou um gravador, faço um tipo muito especial de gravura. Para lhe ser franco, eu sou na verdade um artista gráfico. Eu sou mesmo um escritor que faz gravura. Nessa campo, tudo o que faço é procurando ligar ao texto literário. É uma criação que é feita paralelamente à criação do texto literário, alguma coisa apenas para ilustrar o texto literário que nasce com ele. Do ponto de vista literário, se eu tivesse que escolher alguma coisa minha para fora eu escolheria A Pedra do Reino, apesar dos defeitos que reconheço. No teatro, O Auto da Compadecida e A Farsa da Boa Preguiça.

O sr. tem lido com freqüência? O que está lendo, no momento?

Ariano – Atualmente estou relendo Dom Quixote.

Quais as influências que o Escritor Ariano Suassuna sofreu?

Ariano – De muita gente. Dos autores espanhóis. Recebi uma influência muito grande Calderón de La Barca; de Gil Vicente, o português; dos grandes escritores russos, principalmente Gogol.

De que forma a poesia se manifesta no seu trabalho?

Ariano – Eu considero a poesia a fonte profunda de tudo o que escrevo, inclusive do romance e do teatro, apesar de minha poesia ser pouco conhecida.

Me parece que há um livro seu de poesia ainda inédito. Por que não foi publicado?

Ariano – Há, sim. O Pasto Incendiado. Não foi publicado por dificuldades. Por outro lado, eu também sempre pensei em usar esses poemas do livro integrados num texto maior. É mais por minha culpa do que por culpa dos editores.

Há uma outra obra sua jamais publicada: O Arco Desolado. Porque O sr. nunca publicou essa peça?

Ariano – Porque considero uma peça falha.

E o seu lado de ator, como ele se manifesta?

Ariano – Eu sempre fui muito ruim. Não posso nem dizer que tentei. Mas, quando eu era do Teatro do Estudante de Pernambuco, estavam montando uma peça minha e faltou um ator. Como só quem conhecia o papel era eu, me botaram para fazer e foi uma das piores experiências da minha vida.

E isso lhe frustra?

Ariano – Não. eu escrevo para os outros representar.

Os reis e palhaços são personagens muito presentes na sua obra. Há uma razão especial para isso?

Ariano – É porque eu considero tanto o rei quanto o palhaço duas figuras simbólicas da alma humana. Acho que todos nós somos um misto de rei com palhaço. Rei e palhaço são dois símbolos muito fortes dessa dicotomia da alma humana.

Qual a sua ligação ou afinidade com o circo?

Ariano – Primeiro por aquela força que tem o palhaço, símbolo da alma humana. Depois, pelo papel que o circo e o palhaço exerceram na minha infância, sendo talvez a primeira forma de teatro da qual tomei conhecimento.

O seu primeiro contato com o circo foi em Taperoá (Paraíba). Havia o palhaço Gregório. Teria sido ele quem inspirou os palhaços de suas obras?

Ariano – Era um circo mambembe, brasileiro, que passava em Taperoá, quando eu era menino. Realmente, tinha esse palhaço a quem eu prestei a minha devida homenagem. Inclusive, no discurso que fiz, quando tomei posse na Academia Brasileira de Letras, fiz referências a essa influência do palhaço Gregório em mim.

Há semelhanças entre o circo e o teatro, quais são elas? O Teatro seria um circo mais moderno, mais elitista?

Ariano – Nunca fiz distinção. Para mim, tanto o circo quando o teatro são uma forma de espetáculo. Nunca fiz distinção, principalmente porque nos circos da minha infância, havia inclusive teatro.

Há insinuações segundo as quais Macunaima teria influenciado Quaderna. O que há de verdadeiro nisso?

Ariano – Não influenciou nada. Eu quando li Macunaima já era bastante adulto e já tinha publicado A Pedra do Reino.

A propósito, há uma versão de que o sr. antipatiza com Mário de Andrade. Ele teria acusado o seu pai (João Suassuna, ex-presidente da Paraíba) de ser o verdadeiro autor de uma obra forjada com o pseudônimo Érico de Almeida, que surgiu como jornalista. Como é mesmo essa história?

Ariano – Ele passou uma vez pela Paraíba. Por motivos políticos, não simpatizava com o meu pai, e andou caluniando o meu pai, dizendo que meu pai tinha forjado um livro e colocado o nome falso de Érico de Almeida, dizendo que era este o pseudônimo do meu pai.

Mas, isto não tem nada a ver com o fato de você não gostar de Macunaima, não é mesmo?

Ariano – Há razões para eu não gostar de Macunaima. Por exemplo: sábado passado (dia 14) O Auto da Compadecida foi encenada aqui em Recife. O jornal publicou uma nota chamando João Grilo de herói sem caráter. Fiquei indignado, porque não considero João Grilo um herói sem caráter. Pelo contrário, para mim é o personagem de mais caráter de O Auto da Compadecida. Esse negócio de apresentar como expressão típica do povo brasileiro um herói sem caráter, me irrita profundamente, porque não é a verdade. O povo brasileiro tem caráter e João Grilo tem caráter. Uma pessoa como ele, que resiste a tudo, passando as dificuldades que ele passou e resistir, vencer. Ele luta contra tudo e contra todos; contra a burguesia, representada pelo pai dele; luta contra a aristocracia rural, representada pelo Major Antônio Morais; luta contra os cangaceiros, que vêm matá-lo; contra a polícia e enfrenta até as potestades celestes. Porque se uma figura dessa não tem caráter, eu não sei quem mais tem caráter.

Quando falávamos de circo, você se referiu à sua infância. Que lembranças você guarda da infância? Teria sido uma infância agradável?

Ariano – Tenho quase uma obsessão pela infância. Não é gostar ou deixar de gostar. Em mim é uma imposição da minha personalidade falar sobre isso, ou escrever sobre isso. Acho a infância uma coisa muito forte em meu mundo.

Quando criança, O sr. gostava muito de caçar. Ainda caça, hoje em dia?

Ariano – Não.

Por que?

Ariano – Deixei de caçar porque concluí que não era uma coisa justa. Era uma forma de violência contra a natureza, contra os bichos.

Seria o seu lado de ecologista se manifestando?

Ariano – Não. Eu não simpatizo com a ecologia, principalmente da maneira que está sendo introduzida no Brasil. A ecologia, no Brasil, está se tornando uma outra impostura. As elites brasileiras estão preocupadas porque o mico-leão-dourado está se extinguindo. Enquanto isso, o ser humano, mais importante do que qualquer mico-leão-dourado, é deixado aí passando fome, sofrendo doenças e sem ninguém ver que o povo brasileiro é a espécie mais importante em extinção. Outro dia, prenderam dois rapazes aqui no sertão pernambucano porque mataram um tatu para comer. A ecologia está colocando o ser humano como secundário, em nome da ararinha-azul. Só peço que as elites brasileiras e o governo brasileiro tenham pelos brasileiros a mesma preocupação que estão tendo com o mico-leão-dourado. Não gosto disso, detesto essa coisa.

O sr. foi o criador do Movimento Armorial. Qual era a proposta desse movimento?

Ariano – Era a busca de uma arte erudita brasileira baseada no nacional e no popular como verdadeiras colunas para o universal. Entendíamos que, de inicio, não existe arte universal. Existe a arte universalizada pela boa qualidade e pela divulgação. Toda arte verdadeira é, de início, nacional. E, no Brasil, só é nacional o que é popular ou aquilo que é ligado ao popular. O Movimento Armorial buscava uma arte erudita brasileira fundamentada no nacional e no popular, em busca do universal.

Quem mais participou do Movimento Armorial?

Ariano – Muita gente. Eu apenas sugeri a criação do movimento e o batizei. Mas também participaram Capiba, Guerra-Peixe, Jarbas Maciel, Antônio Madureira e Antônio Nóbrega. Atualmente, participam Janice Japiassu, Débora, um jovem escultor chamado Arnaldo Barbosa e outros jovens pintores como Romero de Andrade Lima, Dantas Suassuna e outros.

Quer dizer que o movimento continua firme?

Ariano – Ainda.

E quais são os resultados desse movimento?

Ariano – São vários os frutos. O romance d’A Pedra do Reino é um deles. A música de Antônio Madureira, é outro; o Quinteto Armorial, que acaba de ser editado em CD.

O Movimento Armorial surgiu exatamente 40 anos depois da morte do seu pai, João Suassuna. Porventura existe alguma relação entre os dois fatos?

Ariano – Não teve muita relação. A herança do movimento, como não podia deixar de ser, é mais cultural. Nós procuramos levar adiante o trabalho da escola do Recife, que foi liderada por Tobias Barreto e Sílvio Romero, no século XIX; da Semana de Arte Moderna e do Movimento Regionalista.

E a cultura brasileira, de modo geral, a quantas anda?

Ariano – Não tenho muitas informações a respeito. Estou muito trancado aqui, escrevendo o meu livro. Não leio muito jornais, revistas e, portanto, não estou a par.

Vamos falar um pouco de outro movimento, o Movimento Tropicalista. É verdade que o você o considera “equivocado”? Qual teria sido o grande equívoco dos Tropicalistas?

Ariano – Acho o Tropicalismo um movimento equivocado porque ele assumiu como bandeira uma idéia que era espalhada na América Latina e no mundo, pelos americanos, que apresentavam a visão caricata, ridícula, do homem latino-americano em geral, particularmente do Brasil. O Movimento Tropicalista valorizava certas coisas de profundo mau-gosto. Acredito que eles pensavam que com isso reagiriam. Mas, a meu ver, eles incorporaram as imagens negativas, de mau-gosto, ao pensamento e às idéias do movimento.

Carmem Miranda, porventura, também seria uma dessas figuras caricatas do Brasil?

Ariano – Ora, sem dúvida alguma. A Carmem Miranda é uma coisa que nem sequer me preocupa. Você, se for entrevistar um escritor francês, não vá perguntar a ele sobre Edith Piaf, porque não tem sentido. O escritor francês se interessa por Erick Satie, De Bussy e Ravel, e não por Piaf; o escritor brasileiro também não tem interesse por Carmem Miranda. Ela não significa nada para mim. Quem significa para mim é Euclides da Cunha. Este sim. E se é por proteção à mulher, já que Carmem Miranda era mulher, me interesso por Clarice Lispector, Cecília Meireles e Rachel de Queiroz. Mas Carmem Miranda não significa nada, coisa nenhuma.

O que significa , para você, a música de Caetano Veloso, que é uma espécia de mito, uma figura nacionalmente festejada e um dos principais precursores do Tropicalismo?

Ariano – Rapaz eu não quero mais falar disso, não. Mas, é a mesma coisa de Carmem Miranda. Eu não tenho o menor interesse de falar disso, mas é a mesma coisa que eu disse de Carmem Miranda.

A propósito de Euclides da Cunha: a conotação dada à vida de dele no recente seriado da Rede Globo de Televisão, gerou indignação pelo tratamento ridículo que teria sido dado à figura histórica. O sr. compartilha desse sentimento, dessa indignação?

Ariano – Acho melhor do que a versão dada por Mário Vargas Llosa na Guerra do Fim do Mundo. Eu preferi a televisão brasileira. Deturpação tinha que haver. Porque aquilo é uma obra de arte, uma criação. Tinha que haver. Isso não quer dizer que eu gostei. Mas que gostei menos ainda do romance de Vargas Llosa que, no entanto, a crítica brasileira colocou nas alturas. Aquilo é um acinte à memória de Euclides da Cunha, uma vergonha – apresenta Euclides como um covarde, coisa que ele nunca foi. Ele era bravo, valente. Pelo menos a televisão o mostrou como um homem corajoso, que ele realmente era.

O sr. ausentou-se da Paraíba e se distancia dela. Há alguma razão especial para isso? As lembranças da Paraíba lhes são tão amargas assim, ou o sr. acompanha o que ocorre lá, a política, talvez, meso à distância?

Ariano – Não me ausentei da Paraíba. Todo ano vou à Paraíba. Preocupações com a política da Paraíba eu tenho com relação a qualquer outro Estado brasileiro. Agora eu noto que a Paraíba me estranha.

Como assim? Por que chegou a essa conclusão?

Ariano – Há uns três anos, saiu uma reportagem na revista Veja sobre a Paraíba. Uma matéria paga pelo Governo do Estado. Não tem nenhuma referência a mim. A princípio achei que seria porque só estaria fazendo referência aos mortos. Mas não. Depois pensei que se colocaria apenas os que não saíram do Estado, mas não. José Lins do Rego viveu a vida toda fora da Paraíba e ninguém nunca ligou, e estava lá presente. Tinha referências a Sivuca. Todas as referências muito justas, mas acho que eu era a única pessoa que não estava mencionada. Há um livro – A Literatura na Paraíba, Ontem e Hoje – onde há uma série de estudos sobre artistas da Paraíba, e não tem nenhuma referência a mim.
Estão todos, menos eu. Então, não fui eu quem me distanciei da Paraíba, ela foi quem distanciou-se de mim; a Capital, porque ao sertão eu vou todos os anos. A Taperoá vou freqüentemente. No ano passado, eu passei os meses de abril e outubro em Taperoá. Agora, vou de novo. Não sei se não será ao contrário: a Paraíba foi quem se esqueceu de mim. Em todo o canto que eu chego, seguro a minha condição de paraibano, a afirmo. Quando recebi o título de Cidadão pernambucano, no discurso de saudação alguém disse que eu era um “pernambucano de coração”.

Eu disse: não, senhor. Eu sou paraibano de nascimento e de coração. Agora, moro em Pernambuco, e não há guerra entre Pernambuco e Paraíba. Sou bem tratado aqui. Os pernambucanos querem dizer que eu sou Pernambucano, mas eu digo que sou paraibano. Mas a Paraíba não quer me aceitar. Aí é outra coisa…

Barbosa Lima Sobrinho: “O povo precisa reagir contra o entreguismo”

Postado: 15-08-2012
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Barbosa Lima Sobrinho

Por Wellington Farias
A entrevista a seguir, foi concedida pelo então presidente da Associção Brasileira de Imprensa, Barbosa Lima Sobrinho, na sede da entidade, no Rio de Janeiro, em junho de 1992. Exatamente em meio à crise que corroia as bases do Governo Fernando Collor de Mello. Imaginava-se estar a dmocracia brasileira em teste.
Nacionalista convicto, ex-governador de Pernambuco – por cujo Estado foi deputado federal três vezes – Barbosa Lima era também decano da Academia Brasileira de Letras. “Já enterrei três levas de imortais”, regozijou-se o jornalista (à época perto de completar 96 anos) enquanto se acomodava na cadeira de presidente da ABI, com sede no Rio de Janeiro.

Barbosa Lima foi o mais jovem jornalista a assumir a Presidência da ABI e era o mais antigo à época em que concedeu esta entrevista. Foi autor de mais de 40 livros e de 3 mil artigos contabilizando-se aqueles que foram publicados no Jornal do Brasil, periódico em que escreveu de 1921 até morrer.

Na entrevista seguinte, Barbosa Lima defende a exigência do diploma de nível superior para o exercício da profissão de jornalista; prega uma “reação enérgica” do povo contra os entreguistas do patrimônio nacional; acha que o preconceito é um traço marcante no Poder Judiciário e rejeita a insinuação de que a ABI é uma entidade de vestais:
Wellington Farias – A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) é uma entidade exclusiva de jornalistas ou também se propõe a ser de notáveis, à semelhança da Academia Brasileira de Letras?

Barbosa Lima – A ABI se formou como entidade de jornalistas, mas incluindo patrões e empregados na área do jornalismo. Esta é a característica da Associação Brasileira de Imprensa, desde que se fundou, em 1908, quando considerou ser necessário congregar empregadores e empregados para ser uma entidade com o prestígio a altura de uma entidade de jornalistas. Está aberta não só a jornalistas, mas nós exigimos uma atividade no jornalismo para que se possa compor o quadro de militantes da entidade.

Que outras categorias compõem o quadro de associados?

Barbosa Lima – Temos várias outras categorias incluídas no nosso Estatuto. Entretanto, só quem intervém nos destinos da ABI são os sócios militantes, e não será militante aquele que não tiver uma atividade jornalística efetiva. Hoje o número de associados está perto de quatro a cinco mil. Embora propriamente em contribuição efetiva não chegue, talvez, a muito mais de mil sócios. Hoje temos a satisfação de também termos, no quadro da entidade, jornalistas de São Paulo. Temos uma representação efetiva da Associação Brasileira de Imprensa, em São Paulo, e só esta representação tem mais de 800 sócios.

Esse número de associados, levando-se em conta o universo de jornalistas de todo o País, não é exíguo para dar representatividade à ABI?

Barbosa Lima – Acreditamos que representamos, de fato, a categoria dos jornalistas, até pela data de nossa fundação. A ABI é a mais antiga associação de imprensa do país e tem cumprido realmente o seu destino defendendo não só a liberdade de imprensa, como o diploma para jornalista, que dá a categoria universitária ao jornalista, e esta condição de categoria universitária pode servir de peso para uma remuneração maior.
De modo que, na defesa da exigência do diploma universitário, para o jornalista, nós consideramos a situação efetiva do jornalista e trabalhamos para a melhoria das suas condições de trabalho e do aspecto de sua remuneração.

A exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista tem gerado polêmica. Uns dizem que isso cerceia a livre manifestação do pensamento, desde que limita àqueles oriundos da universidade o direito de exercer o jornalismo; outros consideram a lei, baixada pela Junta Militar, um entulho do autoritarismo. Aliás, esta exigência, curiosamente, foi adotada apenas por regimes ditatoriais…

Barbosa Lima – Mas, se você considerar que os jornais só dizem o que os patrões querem, tanto faz ser diplomado como não diplomado. Agora, como nós defendemos uma categoria maior de jornalista, e que queremos que eles tenham titulo universitário…
Porque, em outros países, eles têm o título universitário, que não é exclusivamente de jornalista. Mas eles freqüentaram a universidade. E nós lutamos para que a categoria de jornalistas venha da categoria universitária, porque com isso damos uma categoria intelectual maior ao jornalista.

Qual teria sido a intenção da Junta Militar – que assumiu o poder em 1969, durante a “doença” do então presidente Costa e silva – ao editar a lei que regulamenta a profissão de jornalista, levando-se em conta que a imprensa era vista pelos militares como um dos principais incômodos para a sobrevivência da ditadura militar?

Barbosa Lima – Não foi a Junta Militar quem criou a exigência do diploma para jornalista. Quem criou o diploma para jornalista e deu-lhe uma categoria foi Jânio Quadros. Esse é um ponto que vocês precisam retificar, porque há uma lei criada por Jânio Quadros que definiu e deu à categoria a exclusividade para os diplomados e Jânio Quadros foi eleito numa das eleições mais democráticas do Brasil com alguns milhões de votos acima do general Lott a quem apoiei e fui partidário. De modo que, quando digo que a lei vem de Jânio, estou apenas fazendo justiça a uma pessoa que combati como candidato à Presidência da República.

As vezes a ABI é tachada de “reduto de vestais”, de pedantes, e de se manter num pedestal acima da sociedade. Mas, qual é o grau de aproximação da ABI com a sociedade brasileira?

Barbosa Lima – Nós temos aqui uma boa convivência com a sociedade civil. Procuramos aqui na sede, na parte da tarde, por exemplo, reunir pessoas jornalistas e não jornalistas, para um contato mais próximo possível com a sociedade; nós nos consideramos da sociedade civil, naturalmente, à semelhança da Ordem dos Advogados do Brasil e o Clube de Engenharia, que estão diretamente ligados à Associação Brasileira de Imprensa, sobretudo o Conselho Federal da OAB.

Em que termos se dá a relação da ABI com o Governo Federal e as Forças Armadas?

Barbosa Lima – Nós somos totalmente independentes, de um e de outro. Não temos nenhuma ligação com os militares, tampouco com o presidente da República; porque procuramos defender exatamente os interesses da sociedade, e não apenas o programa de um determinado governo.

Qual é o perfil político e ideológico da Associação Brasileira de Imprensa? Ela é uma entidade de centro, de direita ou de esquerda?

Barbosa Lima – Isso depende muito dos elementos que compõem o Conselho Administrativo da ABI. Seria interessante que você visse o código geral dos elementos que compõem o Conselho Administrativo. Porque você consideraria, por exemplo, o ministro Clóvis Ramalhete, Raymundo Faoro, que são elementos do Conselho Administrativo. Assim, se nós formos verificar todos os elementos que compõem este quadro, que dirigem a ABI. A entidade é dirigida por este conselho, em regime parlamentarista. Porque sou apenas o presidente da diretoria.

A propósito, o regime parlamentarista seria viável para o Brasil?

Barbosa Lima – Eu, pessoalmente, sou mais pela orientação de Ruy Barbosa. ele não dava muita importância para o regime político. Ele, aliás, que tivera uma atuação brilhante no parlamentarismo, no tempo do Império, foi justamente o criador do regime presidencialista na Constituição do Governo provisório. De modo que todos os governos dependem das pessoas que os executa e os compreende.
E o regime parlamentarista bem estruturado, com partidos políticos bem organizados e atuantes, é um regime excelente; como é excelente um regime presidencialista em que, de fato, haja independência dos outros poderes – Legislativo e Judiciário – em relação ao presidente da República.
Acho que o presidencialismo nos Estados Unidos funciona bem. funciona bem porque a maioria da Câmara é do partido contrário ao do presidente. De forma que, através disso, se dá uma compensação perfeita com a influência dos partidos políticos.

O Brasil, então, não estaria dando certo, também politicamente, em função dos seus homens públicos, dos seus políticos?

Barbosa Lima – Isso vamos atribuir aos homens que estão no comando da República. Veja a situação presente: quando candidato, o senhor Fernando Collor apresentou um programa que não está sendo cumprido; porque no programa mínimo do Collor, ele considerava que as estatais rentáveis constituem um motivo de orgulho para a sociedade e que não deveriam ser alteradas, de maneira nenhuma. No governo, ele está fazendo exatamente o contrário. Esta é uma das falhas do nosso regime presidencialista – se elegem com um programa e fazem justamente o contrário na execução das suas metas.

Que avaliação o senhor faz do desempenho do atual governo, na área econômica?

Barbosa Lima – Na área econômica eu sou profundamente nacionalista. Acho que os interesses supremos danação brasileira devem ser resguardados e defendidos. Eu não posso compreender, por exemplo, uma série de medidas entreguistas que estão sendo aí aprovadas a toda hora.
Veja, por exemplo, essa venda da Usiminas, que deveria inclusive figurar num capítulo de corrupção; porque ela foi avaliada em US$ 10 bilhões, mas foi vendida por US$ 450 milhões. O que vale essa corrupção que está sendo feita aí em face de um episódio como este?

O brasileiro, principalmente os homens que estão no comando do País, teriam perdido o senso de nacionalismo?

Barbosa Lima – O senso de nacionalismo foi defendido por grandes figuras do passado, inclusive Alberto Torres, que tem livros memoráveis a este respeito. E eu tive a honra de escrever a biografia de Alberto Torres – Presença de Alberto torres – Exatamente em defesa dos bens nacionalistas. Como Ruy Barbosa era também nacionalista. Ruy Barbosa, ao se pronunciar na última cerimônia de formatura da qual esteve presente, no final fez uma fé de ofício nacionalista da maior significação.

Esta situação de hoje, de corrupção, desilusão nacional, as incertezas que pairam sobre os brasileiros, seriam conseqüência dos mais de 20 anos de regime militar?

Barbosa Lima – Acho que desde a eleição de Tancredo Neves que houve uma separação completa. Embora nada de Tancredo Tenha sido executado. Lembre-se que Tancredo Neves chegou a declarar, de maneira enérgica, que o empréstimo externo do Brasil não seria pago com a fome e a miséria do povo brasileiro. Entretanto, verificamos, depois da morte dele, que os governos que o sucederam se empenharam em pegar o empréstimo externo que só poderá ser pago com a miséria e a fome do povo brasileiro.

Mas parece razoável a avaliação de que Tancredo Neves só chegou ao poder depois de assumir inúmeros compromissos com as classes dominantes, com o poder econômico lhe apoiando, assim como os militares e tendências diversas. Daí, portanto, é provável que ele não tivesse levado adiante um projeto viável para o Brasil, sobretudo de conotação nacionalista.

Barbosa Lima – Ele selou alguns acordos para chegar à Presidência da República. Mas acordos que lhes permitiam afirmações como esta.

O senhor arriscaria fazer uma projeção do Brasil para o início do século XXI, para as próximas décadas?

Barbosa Lima – As projeções não são favoráveis. Nós temos que reagir de uma maneira lógica contra o que chamo de “entreguismo”, que está acontecendo. Nós estamos, realmente, com uma corrente entreguista. Acho que quem faz uma dívida externa no valor de US$ 130 bilhões, está conspirando contra o Brasil. Porque é evidente que o Brasil nunca teria condições de pagar uma dívida externa dessa monta.

Quem são os entreguistas de plantão?

Barbosa Lima – Isso eu deixo para que vocês descubram e apontem, e também a sociedade, porque eles estão aí, à mostra, através dos ministros que serviram aos governos militares e que continuam a influir nos destinos brasileiros defendendo as idéias dos estrangeiros e não as do Brasil.

Em que termos seria esta “reação enérgica”?

Barbosa Lima – Creio que seria criar condições para tornar viável esta reação e, para que isto ocorra, é preciso haver uma decisão de entendimento do povo brasileiro. Estou certo de que o povo brasileiro aplaudiria uma orientação em defesa dos interesses essenciais do País.

Um dos entulhos do autoritarismo, ainda vigentes, é a Lei de Imprensa. Mas nós estamos caminhando para a edição de uma nova Lei de Imprensa. Que avaliação o senhor faz do projeto da Lei de Imprensa, que está para ser editada?

Barbosa Lima – Pelo menos é melhor do que a outra. Na lei atual, feita no tempo do Marechal Castelo Branco, não se pode processar o presidente, porque ele é intocável. Num regime presidencialista, em que se concede esta imunidade ao presidente, está se aniquilando o próprio regime. Afinal, o regime político vale pela responsabilidade dos que estão à frente dos negócios públicos.
Há uma falha como a multa para o jornalista, mas eu tenho muito receio desta música para o jornalista infrator porque nas mãos de um Poder Judiciário que não seja totalmente isento de preconceitos, ela pode ser meio até de extinguir a própria liberdade de imprensa, ou acabar com os jornais que estejam se manifestando de uma maneira mais vigorosa.
Mas, acredito, o Poder Judiciário – não através de todos os juizes, mesmo porque aqui no Rio de Janeiro tivemos casos em que o Hélio Fernandes esteve envolvido, em que a sentença do juiz não deixou de revelar animosidades que estão sendo corrigidas pelos órgãos superiores – de modo que a minha confiança é nos órgãos superiores da Justiça, e não em todos eles; porque se há alguns que cumprem o seu dever, de maneira isenta, há outros que se deixam levar por questões pessoais.

Mas, de modo geral, o senhor considera o Poder Judiciário brasileiro preconceituoso?

Barbosa Lima – Não. Acho que os órgãos supremos não são preconceituosos. Mas, quando dizemos que há um órgão preconceituoso do Supremo, estamos dizendo que alguns juizes também não seriam preconceituosos.

O senhor acha mesmo que a imprensa tem discutido e correspondido satisfatoriamente às aspirações da sociedade brasileira?

Barbosa Lima – Desde que ela permita o entrechoque das idéias, ela está cumprindo o seu destino. Acho que a imprensa abriu espaço exatamente para o colunista, os colaboradores com opiniões diversas, e só através desse confronto de idéias é que se pode chegar ao julgamento das causas.

Até que ponto essa crise, que começou com as denúncias de Pedro Collor contra o presidente Fernando Collor, irmão dele, ameaçam a democracia brasileira ainda em consolidação?

Barbosa Lima – Não acho que seja uma ameaça. Agora, defendemos que, no caso de se chegar a verificação daquelas denúncias… Eu combato muito a idéia de Antônio Carlos Magalhães, que acha que há uma ameaça de um candidato militar. A Constituição determina que, na ausência do atual presidente, assume o vice-presidente. E o prestígio da atual Constituição se consolidaria justamente na ascensão do vice-presidente da República, no caso de impeachment.

Quer dizer que o senhor não acredita em golpe militar, pelo menos a curto prazo?

Barbosa Lima – A curto prazo, não há nem possibilidade. Porque, nos mais de vinte anos em que os militares governaram o Brasil, eles próprios sentiram que perderam o prestígio. Porque eles também estão dentre os responsáveis por essa dívida de US$ 130 milhões.

O senhor acredita na hipótese de Fernando Collor renunciar?

Barbosa Lima – Eu não sei se ele renuncia. Com Nixon, nos Estados Unidos, foi difícil a renúncia. Mas houve um momento em que ele ficou sob a ameaça de uma condenação pela Corte Suprema. Ai ele teve que decidir entre a ameaça de condenação, pela corte, ou a renúncia. Optou pela renúncia.

Este seria o grande teste da democracia e da nova Constituição?

Barbosa Lima – Uma das provas da consolidação da democracia é justamente enfrentar o problema atual e decidir de acordo com os seus recursos constitucionais.

O corporativismo é um traço muito marcante na sociedade brasileira, inclusive no sindicalismo. A imprensa seria um dos segmentos mais corporativistas desse quadro?

Barbosa Lima – Acho que se exagera nessa alusão de corporativismo. Muitas coisas que não são corporativas “eles” acham que são corporativismo, ou a chama assim; querem classificar o nacionalismo como um corporativismo.

A serviço de quem está a imprensa de hoje: das elites ou da sociedade em sua maioria?

Barbosa Lima – Ela faz uma mistura. Nesse ponto, um jornal não pode desprezar totalmente as forças econômicas, porque não teria condições de sobrevivência. Mas há jornais que se inclinam mais para a defesa dos interesses econômicos, e outros que se interessam menos por isso. E há a imprensa alternativa: existe a Hora do povo, um jornal que está sendo criado em São Paulo com uma circulação crescente. Este jornal defende as idéias nacionalistas de maneira integral e completa.

Carlos Castello Branco, o mais festejado colunista político do País, diz que a imprensa vende isenção ao público, mas está sempre pronta para distorcer os fatos em benefício de algum interesse particular…

Barbosa Lima – Nem todos os jornais rezam por isso ai. Eu creio que o próprio Carlos Castello Branco não confirmaria, de maneira integral, esta frase que você está interpretando.

Pois bem: o senhor acha que a sociedade acredita na imprensa. Mas será mesmo que a imprensa goza de credibilidade na opinião pública?

Barbosa Lima – Se não acreditasse não compraria jornal.

A julgar pelos números das vendas não compra mesmo. Somos um país de mais de 170 milhões de habitantes, e O Globo, o jornal que mais vende no país, mal chega aos 220 mil exemplares. Além disso, pesquisas encomendadas pelas revistas Imprensa e IstoÉ mostram que a credibilidade da imprensa brasileira despenca cada vez mais para índices irrelevantes.

Barbosa Lima – Devido a situação econômica dos jornais. Porque o preço do jornal, hoje, pesa muito no orçamento de qualquer brasileiro.

Que tipos de problemas o senhor chegou a ter com o regime militar?

Barbosa Lima – Fui envolvido em treze inquéritos policiais militares (IPM), que não deram em nada, como todos eles. Isso basta para dar a prova da minha isenção e da minha firmeza no decorrer dos anos.

(*) Barbosa Lima é nacionalista e preside a Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Dados biográficos do entrevistado transcritos da encclopédia Wikipédia:
Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho (Recife, 22 de janeiro de 1897 — Rio de Janeiro, 16 de julho de 2000) foi um advogado, escritor, historiador, ensaísta, jornalista e político brasileiro.

Filho de Francisco Cintra Lima e de Joana de Jesus Cintra Barbosa Lima. Estudou o curso primário em Recife. Na mesma cidade, iniciou o secundário no Colégio Salesiano, terminando-o no Instituto Ginasial Pernambucano. Em 1913, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife, onde colou grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1917. Foi adjunto de promotor do Recife, em 1917, e advogado no período imediato ao de sua formatura. Colaborou na imprensa pernambucana, no Diário de Pernambuco, no Jornal Pequeno e, principalmente, no Jornal do Recife, onde escreveu a crônica dos domingos, de outubro de 1919 a abril de 1921. Colaborou ainda na Revista Americana, Revista de Direito, Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, no Correio do Povo, de Porto Alegre, e na Gazeta, de São Paulo.

Mudando-se para o Rio de Janeiro, dedicou-se ao jornalismo. Trabalhou no Jornal do Brasil a partir de abril de 1921, a princípio como noticiarista, mais tarde como redator político e, a partir de 1924, como redator principal. Escreveu, até a data de sua morte, em julho de 2000, um artigo semanal, nesse jornal.

Na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), exerceu a presidência nos períodos de 1926 a 1927; 1930 a 1932; a presidência do Conselho Administrativo de 1974 a 1977; e novamente a presidência de 1978 a 2000. Foi proclamado Jornalista Emérito pelo Sindicato da categoria de São Paulo. Quando assumiu pela primeira vez a Presidência da ABI, Barbosa Lima Sobrinho já revelava seu dinamismo: convocou uma assembléia-geral para reformar os estatutos, regulamentou a concessão da carteira de jornalista e título de sócio e estabeleceu intercâmbio com as associações de imprensa dos estados, proporcionando a integração dos jornalistas em todo o país.

Eleito deputado federal por Pernambuco para o triênio 1935-37, foi escolhido líder de sua bancada, membro da Comissão de Finanças e relator do Orçamento do Interior e Justiça.

Foi presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool, de 1938 a 1945, quando tomou posse da cadeira de deputado federal por Pernambuco, na Assembléia Constituinte de 1946. Na Câmara dos Deputados, em 1946, foi membro da Comissão de Finanças e designado relator do orçamento do Ministério da Guerra. Renunciou à cadeira de deputado em 1948, para assumir, a 14 de fevereiro do mesmo ano, o cargo de governador do Estado de Pernambuco, exercendo o mandato até 31 de janeiro de 1951.

Foi procurador da prefeitura do então Distrito Federal (Rio de Janeiro) e professor de ensino superior nos cursos de Ciências sociais e econômicas. Como professor, regeu a cadeira de Política Financeira e, mais tarde, a de História Econômica, na Faculdade de Ciências Econômicas Amaro Cavalcanti, do antigo estado da Guanabara. Mais uma vez deputado federal por Pernambuco para a legislatura 1959-1963, integrou a Comissão de Justiça.

Foi sócio benemérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto dos Advogados Brasileiros, com sede no Rio de Janeiro; benemérito da Associação Brasileira de Imprensa e sócio correspondente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e do Instituto de Advogados de São Paulo; sócio efetivo da Sociedade de Geografia; sócio honorário do Instituto Histórico de Goiana (PE); presidente de honra do XIV Congresso Nacional de Estudantes; professor honorário da Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife; presidente do Pen Clube do Brasil em 1954; membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa; membro do Instituto de Direito Público e da Fundação Getúlio Vargas.

Recebeu a Medalha Quadragésimo Aniversário da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1981); o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco e o Prêmio Imprensa e Liberdade, conferido pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (1984); o Prêmio Governo do Estado do Rio de Janeiro e o título de Cidadão Benemérito da Cidade do Rio de Janeiro (1987); o Prêmio Juca Pato, conferido pela União Brasileira de Escritores; o Prêmio San Tiago Dantas (1989); e a Medalha Tiradentes (1992), conferida pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Recebeu também a Medalha Chico Mendes de Resistência do Grupo Tortura Nunca Mais em 1992.

Em 1973 candidatou-se a vice-presidente da República na chapa encabeçada por Ulisses Guimarães pelo Movimento Democrático Brasileiro.

Participou da Campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita, que teve sucesso em 1979.

Em 1992 foi o primeiro signatário do pedido de impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.

A partir de 1994 participou de manifestações contrárias às privatizações de empresas públicas, política iniciada no governo Collor e ampliada no governo Fernando Henrique Cardoso.

Em 1998 foi contrário à revisão constitucional que permitia a reeleição dos ocupantes de cargos executivos, por considerar prejudicial aos interesses do Brasil.

De Villas-Bôas Corrêa, que o conheceu em 1948, quando iniciava a carreira, mereceu as seguintes palavras num artigo: “Barbosa Lima Sobrinho foi uma das maiores figuras do século que não pôde ver terminar. Mais de 50 anos de relações cordiais e espaçadas, a admiração crescente, a reverência da estima não cabe neste pequeno registro emocionado, um ramo de cravos depositado no caixão do grande brasileiro, do patriota insuperável, a lenda eterna na gratidão nacional.”

Recebeu homenagem da escola de samba União da Ilha do Governador, sendo enredo do desfile de 1999.

Barbosa Lima Sobrinho faleceu no Rio de Janeiro, aos 103 anos de idade.

Em 28 de abril de 1937 foi eleito para a cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo o literato Goulart de Andrade. Lá atuou também como secretário-geral em 1952; presidente em 1953 e 1954; diretor da Revista da Academia em 1955 e 1956; diretor da biblioteca de 1957 a 1978 e tesoureiro de 1978 a 1993.

Geraldo Vandré: “Não há nada mais subversivo para a cultura de massa do que o ser nacional”

Postado: 16-06-2012
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Geraldo Vandré, compositor pessonse

Por Wellington Farias
Muita coisa mudou na vida do compositor Geraldo Vandré, desde os tumultuados anos 60, além da idade e da farta cabeleira prateada. Vandré reafirma, entretanto, que os seus ideais permanecem “intactos”.
O autor de Pra não dizer que não falei de flores (Caminhando) avalia que houve muitos equívocos a seu respeito ao se referir àquilo que chama de “mistificação e contradições que criaram em torno da personalidade pública Geraldo Vandré”. O compositor garante: os motivos que o inspiraram para compor a lendária Caminhando, transformada em hino de resistência à ditadura militar, foram “os mesmos” que o inspiraram para compor Fabiana, outra canção de sua autoria, só que de louvor à Força Aérea Brasileira (FAB). Nesta entrevista, realizada no início da década de 90, Vandré revela – pela primeira vez – que está compondo Fabiana, em homenagem à Força Aérea Brasileira (Fab) e solfeja um pequeno trecho.
Vandré foi personagem central de histórico encontro que reuniu alguns monstros sagrados da música da Paraíba, no final de dezembro de 1991, numa casa de veraneio, em Areia Dourada, litoral de João Pessoa, na Paraíba. Ali, para a surpresa de todos, Vandré participou e falou, como não fizera havia anos.
Fez mistério sobre o seu possível retorno aos palcos e ainda avaliou os célebres festivais de música brasileira; relembrou o show que fez em Puerto Strossner, no Paraguai, e desconversou quando o assunto foi a assessoria que, àquela época, prestava ao então governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima. A entrevista que se segue contou com a participação do cantor e compositor Zé Ramalho.

Zé Ramalho – Durante muito tempo você tem se mantido isolado, enclausurado, sem relacionar com os colegas artistas. Por que?

Geraldo Vandré – Pelo contrário, eu ando na rua como uma pessoa comum. A maioria das pessoas que chegaram a um certo destaque, as chamadas personalidades públicas, não fazem isso. Eu sou dos menos isolados. Quando não estou produzindo estou aqui conversando com você.

Wellington Farias – O que representa para você um encontro como este, ao lado de conterrâneos como Zé Ramalho, Vital Farias, Sivuca, Glorinha Gadelha e Livardo Alves?

Geraldo Vandré – Primeiro… (faz pausa para uma breve meditação) A canção de Zé Ramalho… Zé Ramalho em alguns momentos ele chega muito perto de mim. Uma pessoa muito forte, talentosa. Uma das pessoas mais importantes e talentosas que apareceram nos últimos tempos na música popular brasileira. Todo encontro entre músicos, entre essa gente é uma coisa não só necessária, mas difícil de acontecer, hoje em dia. O que falta, um dos grandes problemas da cultura é a falta de encontro entre pessoas assim – pessoas que fazem arte. Isso ocorria há 20 ou 30 anos. Era costumeiro. Hoje, é muito raro você se encontrar assim, para falar, conversar. Um encontro onde artistas falam, trocam idéias.

Zé Ramalho – Por que isso não ocorre mais, hoje em dia?

Geraldo Vandré – O processo de “coisificação” das personalidades separa as pessoas. Para você compreender melhor: há 30 anos, haver-se-ia que se encontrar uma forma de reproduzir essas formas de encontro o mais constantemente possível.
Porque o que existe, a rigor, é um grande isolamento entre todos nós. Esse isolamento provém do processo de massificação, que transformou os veículos de comunicação, as estações de rádio e de televisão, no Brasil, em máquinas de repetição de Vts e gravações.
Eu me recordo muito bem que, quando cheguei em São Paulo, em 1961, havia três estações de televisão. Cada uma delas tinha uma orquestra própria com músicos contratados; cada orquestra tinha seus cantores, rádio-atores. Havia garotas-propaganda. Existia um universo em que as pessoas se encontravam em reuniões de criatividade. Hoje, as TVs estão transformadas em casas de máquinas com um operador de som e um pistoleiro na porta. É a liquidação da cultura, mesmo!!!

Zé Ramalho – Esse encontro de hoje para significar um retorno seu ao convívio com os colegas artistas da Paraíba?

Geraldo Vandré – Pode significar tudo. Mas o meu empenho fundamental, na Paraíba, se dirige a uma proposta, nesse instante, não somente aqui, como também em São Paulo. Todos os meus projetos se resumem a uma principalidade do ponto de vista musical, que é a música erudita. O que falta ao Brasil é erudição nacional.

Zé Ramalho – Você pretendia fazer um trabalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba. Como está isso aí?
Momento do encontro de confraternização de artistas paraibanos. Da esquerda para a direita: uma convidada, o compositor Livardo Alves, o crítico de música Ricardo Anísio, e o compositor Geraldo Vandré concedendo entrevista a Wellington Farias

Geraldo Vandré – Isso é um projeto. Mas não consegui ouvir a orquestra, ainda. Fala-se muito nessa orquestra mas, sinceramente, ainda não ouvi o som dela. Há mais de três anos que tenho vindo freqüentemente à Paraíba e não vejo essa orquestra se reunir. Não existe possibilidade de se trabalhar uma peça sinfônica sem orquestra. Inclusive a proposta que tenho só pode ser colocada a partir de uma determinada orquestra, e não de qualquer uma.
Muito ao contrário do que se faz até hoje, em que as orquestras todas são orquestras que se empenham em executar melhor um mesmo repertório, todo estrangeiro. Diz-se que essa orquestra é melhor do que aquela. Por que se colocam esses parâmetros de comparação? Porque o repertório delas é o mesmo. Um repertório todo estrangeiro, inclusive.
Esse é um problema muito sério.
Não existe repertório nacional. Acho que a proposta não é ser a melhor orquestra. Acho que o caminho da cultura não é ser o melhor; o caminho da cultura é ser única. Quer dizer: o mais importante para mim não é escrever uma peça que possa ser tocada por qualquer orquestra do mundo; que faça sucesso com a Orquestra de Boston, Orquestra de Berlim.
A proposta não é ser a melhor orquestra. O importante é um tipo de obra que represente uma sociedade determinada; determinadas pessoas que se reúnem em torno daquilo, com características próprias, de forma que, muito dificilmente, outra orquestra qualquer possa fazê-lo, muito embora a concepção do sucesso, da massificação seja exatamente o contrário.

Wellington Farias – Essa sua incursão pela música erudita determina uma ruptura com a música popular?

Geraldo Vandré – Não pode haver, da minha parte, ruptura com a cultura popular. Porque a cultura popular é a base de tudo. É da cultura popular que resultam as formas eruditizadas.
Só que você tem a obrigação de melhorar as formas daquilo tudo que você faz. Na medida em que há dedicação às formas populares, em profundidade, você chega indiscutivelmente à erudição.
Agora, cultura popular não existe mais no Brasil. Existe cultura de massa. Isso é terrível, mas é verdade.

Wellington Farias – Como você avalia, hoje, a importância dos festivais de música dos anos 60, tanto do ponto de vista musical quanto do ponto de vista político?

Geraldo Vandré – Aquele era um momento de grande efervescência, de grande criatividade. A arte verdadeiramente dita é sempre uma alternativa de identidade nacional.
Toda manifestação artística, toda obra de arte, existe neste sentido: como alternativa de identidade nacional, ou seja: se não existe sentimento, pensamento e orgulho nacionais, não existe arte.
A arte é coisa de determinadas pessoas, num determinado tempo, com características próprias. O mais é coisa amorfa, que é igual aqui e na Conchichina. E a cultura de massa, para castrar e calar tudo. Não há mais nada mais subversivo para a cultura de massa do que o ser nacional.

Zé Ramalho – Você ainda está estudando aviação?

Geraldo Vandré – Em São Paulo eu passo a maior parte do tempo estudando aviação. Desde pequeno que tenho essa loucura por aviação. E, de 1981 para cá, tenho me dedicado grande parte do meu tempo, bastante tempo a isso.

Zé Ramalho – Mas você busca compreender a parte teórica; busca entender-se de Ministério da Aeronáutica? Como é esse seu estudo?

Geraldo Vandré – Pilotar, não. Não sou piloto, sou aviador. Minha concepção é de que você precisa conhecer a máquina, ser piloto de uma máquina determinada.
Acredito, até, que para ser piloto também é preciso conhecer a máquina. Comecei fazer um brevê no Aeroclube de São Paulo, mas parei. Mergulhei fundo na Força Aérea, em prevenção de acidentes.
Passei dois anos ao lado de um diretor de hospital da Força Aérea, em São Paulo, na Divisão de Investigação e Prevenção de Acidentes da Aeronáutica. Fiz aprofundamentos no assunto.

Zé Ramalho – Já sofreu algum acidente?

Geraldo Vandré – Não. Só prevenção contra acidentes. Fiz aprofundamentos. Descobri coisas que só se descobre na Força Aérea. Não existe, por exemplo, nenhuma escola de aviação civil.
Existe a escola da Força Aérea. E o bloqueio é tão grande que eu, com formação de escola pública, não me dava conta disso.

Zé Ramalho – Qual o seu objetivo com esses conhecimentos?

Geraldo Vandré – Primeiro, aprimorar-me. Descobrir coisas novas. A descoberta principal é que, em relação à projeção da personalidade pública Geraldo Vandré, e daquelas contradições todas que se criaram, das especulações dentro desse processo de clandestinização da cultura nacional, eu me dei conta, depois de 20 anos daquela história de P’ra Não Dizer Que Não Falei de Flores (Caminhando), de que os interesses empenhados na clandestinização da cultura brasileira, no território brasileiro, primeiro que tudo não são interesses nacionais, são interesses estrangeiros, alienígenas.
E, através do processo de massificação, a substituição da cultura popular pela cultura de massa, “eles” conseguiram urdir um planejamento muito bem elaborado, muito bem executado, de tal forma que as poucas resistências que subsistem no Brasil, em relação a esse processo, elas estão convencidas, as consciências resistentes, as poucas que existem, estão convencidas de que a responsabilidade desse processo de clandestinização é das Forças Armadas Brasileiras.
Então quer dizer: “eles” armaram, aprontaram tudo, para jogar a nação contra as suas Forças Armadas (rindo com declarada ironia). Mas aí você só se dá conta… Quando mergulha lá dentro e conhece, e vê muita coisa que de fora não dá para ver.

Zé Ramalho – Você vai fundo, aí, não! Vai prosseguir?

Geraldo Vandré – Sempre! Inclusive porque determinada alternativas do conhecimento não existem fora desse caminho, não. De jeito nenhum.

Zé Ramalho – Você pretende fazer uma pregação sobre isso?

Geraldo Vandré – Não. eu apenas escrevi uma canção. Escrevi muitas canções. E dentre várias que compus, há uma que estou preparando o lançamento. É uma canção que se chama Fabiana.
Ainda é assim: você projeta muitas coisas, faz muitas coisas, mas você precisa escolher uma canção e se dedicar àquela canção. Vem ainda de 1985, uma época em que eu estava no Hospital da Aeronáutica, em São Paulo.
A compus no Dia do Aviador, em 1985 e, portanto, ela já vai fazer seis anos. Foi feita em homenagem à Força Aérea e, por isso, se chama Fabiana, que vem de FAB – Força Aérea Brasileira. É uma canção em decassílabos.

Wellington Farias – Como é a letra dessa canção?

Geraldo Vandré – (Vandré recita solenemente algumas estrofes de Fabiana que já tinha composto àquela altura), para dizer: As palavras já são muito limitadas.
O cantar para mim tem, naturalmente, o seu valor poético, o valor da emoção. Mas, artisticamente, tem um valor irrecusável. Um valor irrecusável da arte, da poesia. Porém, para mim a música propriamente dita já foi para um nível em que são, em primeiro lugar, ritmos do coração.
A maioria das pessoas não se dedica a isso, a esse estudo das pulsações. Nem mesmo a medicina convencional. Eu encontrei a possibilidade de estudar tudo isso na Força Aérea.

Zé Ramalho – Você pretende divulgar essa canção; cantá-la para as pessoas ouvirem?

Geraldo Vandré – Primeiro que tudo estou escolhendo a vestimenta da canção. Acho que ela deve se inserir dentro do contexto de uma obra sinfônica; talvez um poema sinfônico.

Zé Ramalho – Mas ela é tão densa assim. Alça vôo para isso? Quem sabe isso não termina numa espécie de opereta?!

Geraldo Vandré – Não, não, não! Opereta, não! Não vou muito por aí. Eu fico na sinfonia mesmo. É uma canção popular. Opereta já é, digamos, uma impostação do popular. E eu não vou muito por aí, não.
Nada operístico. Para mim, basta a música instrumental mesmo, sinfônica. Os níveis de abstrações são muito maiores.

Wellington Farias – Qual é o grau do seu conhecimento da parte teórica da música, e qual é a sua relação com a música erudita, para que você tenha condições de trabalhar uma peça nesse nível?

Geraldo Vandré – Veja bem: erudição tem um significado. Você chega à erudição através de um aprimoramento. Basta que uma determinada forma de cultura se aprimore, se refine, chegue aos níveis mais elevados da capacidade de abstração humana para chegar à erudição; passa a ser até ciência.
A diferença fundamental entre a arte erudita e a arte popular é que uma é mais cuidada, mais refinada e aprimorada, do que a outra. Mas uma diz respeito a outra. Você não pode ter erudição nem chegar a formas artísticas eruditas se você não tem cultura popular. Isso é evidente.
Esse trabalho, a minha programação, o meu projeto só será possível realizar quando se definir um grupo de trabalho, o núcleo de músicos.
Eu não acredito na composição de escrita, das bolinhas (notas musicais dispostas em pautas). Acho que isso é muito bom para os editores, para vender papel. Para vender papel é muito bom.

Wellington Farias – Os motivos que lhe inspiraram para compor aquelas canções dos anos 60, dentre elas P’ra não dizer que não falei de flores (Caminhando…) provavelmente não são os mesmos que hoje inspiraram Fabiana, não é isso?..

Geraldo Vandré – São as mesmas razões, os mesmos motivos e as mesmas inspirações. Não há diferença nenhuma.

Zé Ramalho – É natural que você deseja tornar publico esse trabalho novo. Quando será mesmo o lançamento de Fabiana?

Geraldo Vandré – Só vai ser possível quando se definir um grupo de trabalho, um núcleo de músicos.

Wellington Farias – Você já iniciou os contatos neste sentido, já pensa em quem poderá participar do projeto?

Geraldo Vandré – Hoje faço uma diferença muito grande entre profissionais e especialistas. Você se dedica a uma determinada atividade e, muitas vezes, é preciso não ser profissional para poder se dedicar a uma atividade mais profundamente.
Porque no momento em que você se profissionaliza passa a depender de injunções de mercado, dos limites do que está se fazendo – você não pode fazer além disto. Portanto, não se pode ir mais além.
A música para mim hoje já é a minha fisiologia mesmo. Já é neurocardiologia.

Wellington Farias – Seria Fabiana uma razão suficiente para você retornar aos palcos?

Geraldo Vandré – Muito pelo contrário, pelo menos por enquanto. Ela é uma razão para eu me afastar ainda mais. Para isso seria preciso haver um espaço e tempo em que determinadas pessoas se reúnem e façam isso.
Isso jamais vai ser resultado de uma atividade individualmente minha. Do contrário seria eu me deixar de me servir da música para mim mesmo. Eu me sirvo da música, hoje, para regular os ritmos do meu coração. Mas isso aí faço comigo mesmo, fazendo escala no piano, é outra história.
Quando você chega a isso, de uma certa forma, a música deixa de ser primeiro arte e passa a ser primeiro ciência, mesmo. Isso é altamente problemático, porque você, a rigor, vai deixando de ser artista e vai virando cientista… (risos) E aí você começa a se ocupar de conhecimentos que são inúteis para a maioria das pessoas.

Wellington Farias – Mas você, mesmo involuntariamente, cria uma expectativa nacional em torno de Fabiana…

Geraldo Vandré – Vai depender das formas de organização social, empresarial. Enquanto não existir uma empresa capaz de sustentar um projeto desse, o projeto não vai existir. Nesse instante eu estou na Paraíba também a convite do governador Ronaldo Cunha Lima, prestando uma assessoria a ele. E o principal que tenho em mente é oferecer este projeto.

Wellington Farias – A propósito de Ronaldo Cunha Lima, você tem sido cobrado, patrulhado por estar prestando esse assessoramento?

Geraldo Vandré – Vou lhe dizer uma coisa: a maioria das pessoas, inclusive da crítica e os que fazem projeção da imagem… a projeção da personalidade pública Geraldo Vandré está muito relacionada com este processo de clandestinização da cultura nacional, que funciona em termos de exploração dos contingentes mórbidos da população, do proibido.
Toda essa massificação que existiu e se fundamenta, claro, numa mistificação anterior, que se chama de “canção de protesto”.
Acho que protesto, a capacidade e a necessidade de protestar, decorre de uma situação própria de pessoas que não conhecem o poder.
A arte, propriamente dita, acho que é um exercício de poder. Eu sempre pensei dessa forma.

Wellington Farias – Com a redemocratização do País…

Geraldo Vandré – (interrompendo a pergunta) Eu estava anteontem cortando o cabelo no Salão João da Mata, que freqüento desde pequeno, e havia uma conversa pregando que democracia é o governo da maioria.
Aí fiquei pensando: mas a maioria não tem nem teve tempo de se ocupar das coisas de que eu me ocupei; eu acho que não sou democrata… (rindo com ironia) Então, acho que não sou democrata (risos). Governo da maioria nem sempre é democracia…

Zé Ramalho – E aquela canção que você cantou em Puerto Strossner, no Paraguai? Eu me lembro de sua participação. Tinha um poema que você me pediu para recitar. Você falava em Alemão.
Havia uma moça muito bonita que você levou lá… Você se lembra daquela história? Uma canção que falava: “P’ra onde foram as flores?” Você entrou vestido de soldado…

Geraldo Vandré – …Ah! Deve ser A História do Anjo Azul (Geraldo Vandré solfeja um trecho da melodia tentando lembrar)

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Entrevista realizada em 1991. Foi durante um encontro informal de artistas paraibanos (Zé Ramalho, Vital Farias, Livardo Alves, Geraldo Vandré  e Sivuca) nua casa de veraneio de uma tia de Zé Ramalho. Vandré havia sido convidado, mas ninguém acreditava que ele comprarecesse. De repente Vandré aparece todo vestio de branco.